quarta-feira, 23 de maio de 2012

Futebol: uma ode à injustiça

A injustiça é um daqueles fenômenos que não possuem aliados. Todos se sentem obrigados a promover o que é justo, ao menos quando o discurso é público. Tal princípio é um pequeno, mas constante risco ao sucesso do futebol como esporte mais popular do mundo. E digo isso por inúmeros motivos, alguns extremamente relevantes e que pretendo citar aqui.

O jogo eliminatório, o famoso “mata-mata”, ilustra bem o papel da injustiça como fator essencial para que o futebol seja um esporte que conquista milhões de pessoas de forma apaixonante, e bilhões de forma genérica. Um ou dois jogos fazem o vencedor avançar – ou ser campeão – e o perdedor ter que desistir de um sonho.

A última edição do mais rico e mais importante torneio interclubes do mundo, a Liga dos Campeões da Europa, foi uma demonstração especial de como o mata-mata é crucial para dar emoção ao futebol.  Nas semi-finais, jogos incríveis por definição: Chelsea x Barcelona e Real Madrid x Bayern de Munique. Os espanhóis, favoritos nos dois confrontos, saíram da disputa. E o favoritismo é relativo? Nem tanto. Os medidores de favoritismo de maior credibilidade são as casas de apostas. Um momento tão extremo quanto ter que confiar o próprio dinheiro num time ou noutro, indubitavelmente leva a um cálculo racional implícito. E nesse cálculo, Real Madrid e Barcelona massacraram alemães e ingleses. E os dois perderam; os madrilenhos, nos pênaltis, o que foi mais um elemento de brilho no jogo.

Bayern de Munique e Chelsea fizeram uma final linda, com todos os elementos de injustiça que fazem desse esporte uma atividade incomparável. Empate espírita nos últimos minutos, pênalti perdido na prorrogação, decisão nos pênaltis. E um fato precisa ser citado: os alemães não venceram um título sequer na temporada; foram vice na liga nacional, OITO pontos abaixo do Borussia Dortmund, campeão com duas rodadas de antecedência. Os ingleses, que pela primeira vez levaram a taça para Londres, ficaram apenas em SEXTO na Premier League. O sistema de mata-mata superou os fracassos nacionais desses clubes e permitiu que eles estivessem onde campeões inconstestáveis, como o Real Madrid, estariam se o cálculo racional tivesse funcionado, e se a frieza tivesse contaminado os resultados.

E por que a sede de justiça quase natural dos homens – e das mulheres hehe – é um risco para a popularidade do futebol? Até aqui, citei injustiças do ponto de vista técnico (times mais fortes que por imprevisibilidades acabam perdendo). Ainda que as regras possam ser mudadas para diminuí-las, evitando ao máximo decisões por pênaltis e promovendo campeonatos de pontos corridos com turno e returno, elas são, em sentido estrito, inevitáveis. Mas há as injustiças de aplicação de regra; erros de árbitros mesmo. Seu instinto dirá que devemos evitar ao máximo esses erros. Mas faça um exercício simples: quanto tempo de conversa sobre futebol é motivado apenas por discussões sobre erros – ou não – de arbitragem? Não sou a favor da inclusão de replay de tira-teima para evitar erros comuns, como os de impedimento, ou de gol em que a bola entrou, mas pouca gente viu de primeira. Gol, mesmo, tem que balançar a rede! Quanto aos erros em marcações de faltas, por exemplo, isso se diminui com maior treinamento dos árbitros. Nota: não defendo a supremacia da injustiça; é preciso alcançar um plano em que ela seja possível, mas não absurda; ela tem que atrair fãs, e não enojá-los e afastá-los.

Essa importância das injustiças no futebol é facilmente comprovada: o maior espetáculo do esporte é a Copa do Mundo, certo? Temos essa pretensão implícita de buscar a justiça em quase todas as áreas, mas no futebol alimentamos o sistema de mata-mata, que é claramente mais injusto do que o de pontos corridos, para o torneio mais importante do mundo – e para os mais importantes de cada continente, interclubes ou entre seleções. E isso torna o esporte mágico.

Quem ficou indignado com os meus argumentos não deve entender que o futebol não é só um esporte, mas uma arte. Injustiças, técnicas ou de arbitragem, acometem muitos, principalmente os envolvidos diretamente, como jogadores e treinadores. Mas elas são elementos dessa arte. E os injustiçados que aguentem, ou saiam da obra.

3 comentários:

  1. Vale um adendo: Bayern de Munique veio de um atropelo na final da Copa da Alemanha ( 5 x 2 pro Borussia) e o Chelsea de uma campanha pífia no Campeonato Inglês, sem chances de ir à Champions e com direito a goleada do Liverpool umas rodadas atrás hahahaha.

    ResponderExcluir
  2. Goleada sofrida com o time reserva, depois da vitória na final da FA Cup contra os mesmos Reds, que fique claro.
    Quanto à justiça: acho que o justo é vencer quem se adapta melhor à competição, aos seus adversários e consegue, em última instância, superar suas limitações e vencer. O legal do futebol não é o injusto, mas sim o imponderável, o imprevisível.
    Tanto que, particularmente, sou a favor da modificação de algumas regras e da inserção, por exemplo, do chip na bola. Porque seria muito mais legal se passássemos horas discutindo o mérito do futebol propriamente dito, e não os erros de arbitragem. Bem, talvez eles façam o futebol ser como é - mas por que não mudar?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dentro da ditadura do futebol bonito e místico (cof cof Barcelona, que de repente jogou a vida inteira assim), qualquer time que joga fechado atrás do meio de campo joga o futebol feio. ou seja, se o futebol bonito não ganha, é injusto. Talvez dê pra levar o post do Teles pra esse lado também, será?

      Excluir