A injustiça é um
daqueles fenômenos que não possuem aliados. Todos se sentem obrigados a
promover o que é justo, ao menos quando o discurso é público. Tal princípio é
um pequeno, mas constante risco ao sucesso do futebol como esporte mais popular
do mundo. E digo isso por inúmeros motivos, alguns extremamente relevantes e
que pretendo citar aqui.
O jogo eliminatório, o
famoso “mata-mata”, ilustra bem o papel da injustiça como fator essencial para
que o futebol seja um esporte que conquista milhões de pessoas de forma
apaixonante, e bilhões de forma genérica. Um ou dois jogos fazem o vencedor
avançar – ou ser campeão – e o perdedor ter que desistir de um sonho.
A última edição do
mais rico e mais importante torneio interclubes do mundo, a Liga dos Campeões
da Europa, foi uma demonstração especial de como o mata-mata é crucial para dar
emoção ao futebol. Nas semi-finais,
jogos incríveis por definição: Chelsea x Barcelona e Real Madrid x Bayern de
Munique. Os espanhóis, favoritos nos dois confrontos, saíram da disputa. E o
favoritismo é relativo? Nem tanto. Os medidores de favoritismo de maior
credibilidade são as casas de apostas. Um momento tão extremo quanto ter que
confiar o próprio dinheiro num time ou noutro, indubitavelmente leva a um
cálculo racional implícito. E nesse cálculo, Real Madrid e Barcelona
massacraram alemães e ingleses. E os dois perderam; os madrilenhos, nos
pênaltis, o que foi mais um elemento de brilho no jogo.
Bayern de Munique e Chelsea
fizeram uma final linda, com todos os elementos de injustiça que fazem desse
esporte uma atividade incomparável. Empate espírita nos últimos minutos,
pênalti perdido na prorrogação, decisão nos pênaltis. E um fato precisa ser
citado: os alemães não venceram um título sequer na temporada; foram vice na
liga nacional, OITO pontos abaixo do Borussia Dortmund, campeão com duas
rodadas de antecedência. Os ingleses, que pela primeira vez levaram a taça para
Londres, ficaram apenas em SEXTO na Premier League. O sistema de mata-mata superou os
fracassos nacionais desses clubes e permitiu que eles estivessem onde campeões
inconstestáveis, como o Real Madrid, estariam se o cálculo racional tivesse
funcionado, e se a frieza tivesse contaminado os resultados.
E por que a sede de
justiça quase natural dos homens – e das mulheres hehe – é um risco para a
popularidade do futebol? Até aqui, citei injustiças do ponto de vista técnico
(times mais fortes que por imprevisibilidades acabam perdendo). Ainda que as
regras possam ser mudadas para diminuí-las, evitando ao máximo decisões por
pênaltis e promovendo campeonatos de pontos corridos com turno e returno, elas
são, em sentido estrito, inevitáveis. Mas há as injustiças de aplicação de
regra; erros de árbitros mesmo. Seu instinto dirá que devemos evitar ao máximo
esses erros. Mas faça um exercício simples: quanto tempo de conversa sobre
futebol é motivado apenas por discussões sobre erros – ou não – de arbitragem? Não sou a favor da
inclusão de replay de tira-teima para evitar erros comuns, como os de
impedimento, ou de gol em que a bola entrou, mas pouca gente viu de primeira.
Gol, mesmo, tem que balançar a rede! Quanto aos erros em marcações de faltas,
por exemplo, isso se diminui com maior treinamento dos árbitros. Nota: não
defendo a supremacia da injustiça; é preciso alcançar um plano em que ela seja
possível, mas não absurda; ela tem que atrair fãs, e não enojá-los e
afastá-los.
Essa importância das
injustiças no futebol é facilmente comprovada: o maior espetáculo do esporte é
a Copa do Mundo, certo? Temos essa pretensão implícita de buscar a justiça em
quase todas as áreas, mas no futebol alimentamos o sistema de mata-mata, que é
claramente mais injusto do que o de pontos corridos, para o torneio mais
importante do mundo – e para os mais importantes de cada continente,
interclubes ou entre seleções. E isso torna o esporte mágico.
Quem ficou indignado
com os meus argumentos não deve entender que o futebol não é só um esporte, mas
uma arte. Injustiças, técnicas ou de arbitragem, acometem muitos,
principalmente os envolvidos diretamente, como jogadores e treinadores. Mas
elas são elementos dessa arte. E os injustiçados que aguentem, ou saiam da
obra.